Vendem-se ratos: a história se repete.


Parece piada, mas acabaram de criar uma profissão nova:
o "dedurismo". A façanha aconteceu em Cascavel, conforme relataram vários jornais. Segue um trecho da notícia:

"Em Cascavel, por exemplo, as Polícias Federal e Militar e a prefeitura lançaram na segunda-feira o programa Informante Cidadão. A iniciativa inédita vai oferecer recompensa em dinheiro para quem auxiliar a polícia com denúncias de pessoas envolvidas com o crime, em especial o tráfico de drogas" (http://veja.abril.com.br/agencias/ae/brasil/detail/2009-03-11-305499.shtml)

A situação é absurda e irá fomentar uma indústria do denuncismo, ou seja, está oficialmente criada a profissão do dedo-duro.

A história do Brasil é rica em exemplos de governantes metidos a espertalhões, tentando acabar com um problema e criando outro. E, também, de malandros levando vantagem sobre a burrice governista.

Um exemplo cômico é o caso que ocorreu durante o governo de Rodrigues Alves (início do sec. XIX) que decidiu acabar com os ratos no Rio de Janeiro. PAra tanto comprava os ratos da cidade. Isso mesmo, o departamento de saúde pública comprava ratos da população!

Resultado: criou-se a profissão de vendedor de ratos. Com isso, espertalhões passavam de casa em casa comprando ratos para revender ao governo. E mais, pessoas criavam ratos em suas residências para vendê-los. A medida não reduziu o número de ratos, apenas fomentou a criação dos bichos chegando-se ao número de dez milhões de ratos mortos, numa população com menos de um milhão de habitantes. Mais sobre o assunto no http://blogdochicomacedo.blogspot.com/2008/09/ode-aos-ratos.html.

Me parece que o mesmo irá ocorrer agora. Algum malandro tentará tirar vantagem disso, virando um dedo-duro oficial a serviço da pátria, o que não será nenhuma surpresa.

Mas isso não é o pior de tudo.

A adoção da medida extrema serve APENAS para colocar os cidadãos uns contra os outros ao estimular a "traição premiada".

A "denúncia premiada" (ou "traição premiada") possui clara influência do Direito Penal do inimigo. Segundo Luiz Flávio Gomes uma das principais bandeiras do Direito Penal do inimigo é "a concesão de prêmios ao inimigo que se mostra fiel ao Direito (delação premiada, colaboração premiada)" (http://www.revistajuridicaunicoc.com.br/midia/arquivos/ArquivoID_47.pdf). Mas nem as mentes mais brilhantes a serviço do Direito Penal do inimigo poderiam imaginar que a concessão de prêmios poderia ser direcionada ao cidadão comum.

Resta à população a imoral tarefa de criar ratos para vender, será que a história irá se repetir? Apenas o tempo dirá, mas é evidente que nenhum benefício pode resultar de uma medida como esta.

Um comentário:

Chico Macedo disse...

Oi, Diogo,

Só hoje vi o seu comentário no post. Obrigado pela referência. O exemplo é muito bom mesmo.

Abraço, Chico.